(Este texto foi originalmente publicado no Jornal Carta Aberta, em novembro de 2003, e também por outros sites, com autorização)
Como homem de letras, costumo ver o trabalho de um escritor com muito apreço. Como servo de Deus, procuro respeitar o esforço de um irmão (mormente de um pastor), de modo que esta análise foi precedida e acompanhada de oração ao Senhor, em busca de sabedoria e equilíbrio. Ainda assim, o adjetivo mais benevolente para qualificar o livro “O Triunfo Eterno da Igreja” (cuja autoria consta ser do pastor Ouriel de Jesus, de Boston) é este: lamentável!
Breve análise técnica:
Tendo trabalhado numa das maiores editoras evangélicas do Brasil, é meu dever declarar que o livro não preenche os mínimos requisitos para publicação por qualquer editora que se preze. Alguns motivos:
1) O estilo geral indica tratar-se da transcrição de manuscritos ou gravações produzidas descuidadamente, em especial pela profusão de redundâncias e pela falta de paralelismo, concordância nominal, regência verbal, coesão e coerência textuais;
2) O vocabulário simples deveria contribuir para uma leitura agradável, mas a redação é tão ruim que, sem o compromisso de fazer esta análise, teria desistido de ler já nas primeiras páginas;
3) A grande quantidade de erros (de acentuação, pontuação, digitação, etc.) indica que a revisão (indispensável para qualquer matéria escrita) foi improdutiva do início ao fim das 371 páginas;
4) A inobservância da maioria das normas técnicas correntes na área editorial confirma os indícios de uma produção feita às pressas, com isso agravando a falta de qualidade.
Os poucos pontos positivos, como a qualidade do papel e o tamanho da fonte, não impedem a conclusão: sob o aspecto técnico, o livro é lamentável.
Breve análise bíblica do conteúdo:
O que você entenderia, ao ler algo assim?
“A Materialização da Soberana Essência da Existência Incriada, que é o Eterno Existir, ocorre com o propósito de mostrar a bondade da Essência da Existência e o prazer que Ele tem de Se sentar à mesa com a existência criada animada limitada santificada ungida e eternizada para momentos específicos de íntima comunhão e profundas revelações.
A materialização da Essência da Existência é a confirmação da grande amizade e íntima comunhão entre o Criador e a criatura através das quais a Soberana Essência da Existência senta-Se à mesa com a existência criada animada limitada santificada ungida e eternizada para compartilhar os Seus grandes mistérios.”
Os dois parágrafos acima, transcritos com absoluta exatidão (inclusive quanto à pontuação ausente), estão na página 278 e formam a seção “A Materialização da Essência da Existência”, do “Capítulo XII – Os Mistérios da Soberania do Pai, do Filho e do Espírito Santo nos últimos Dias”.
O que você conseguiu entender?
Tenho buscado do Senhor compreensão dos pontos-de-vista de outros cristãos, eliminando com isso muitos preconceitos, mas isto não impede de constatar que nenhuma denominação é “dona da verdade” e que, mesmo sendo sinceras, até igrejas sérias têm correntes equivocadas. O exemplo a seguir ilustra este ponto.
Há quem use o Salmo 139.16 como apoio à “predestinação incondicional”, lendo traduções imprecisas, como: “no teu livro todos os meus dias foram escritos” (como se os dias da vida e da morte fossem decretados por Deus antes de nascermos). Porém, no original, o salmista disse que Deus viu seu embrião ainda não desenvolvido e “no teu livro tudo isso foi escrito” (referindo-se à programação perfeita da formação de um bebê, no espírito, antes que sua gestação seja afetada por negativismos bioquímicos e emocionais). Os adeptos da predestinação têm como atenuante não compreender a dificuldade de traduzir o texto, por causa das limitações lingüísticas humanas, mas esta ignorância específica é prejudicial (Os 4.6).
Problemas há em todo lugar, mas o livro de Boston é uma questão muito mais séria, pois, além de trechos esquisitos como o transcrito acima, contém outras coisas estranhas e até contrárias à Palavra de Deus. Há centenas de casos, mas só uns poucos são mencionados a seguir:
Página 27 – Se o autor pretendia dar informações sobre a fé, talvez devesse chamar o capítulo de “Epistemologia da Fé”, mas “A Geografia da Fé” é incompreensível. Geografia é a “ciência que tem por objeto a descrição da Terra...”. Fé está definida em Hebreus 11.1. Uma é literalmente da Terra, a outra vem sobrenaturalmente pelo ouvir da Palavra de Deus (Rm 10.17). Então, geografia da fé não existe.
Página 33 – “Ao criar a fé, Jesus Cristo penhorou a Sua glória, a Sua honra e a Sua graça”. A verdade é que, apenas quando se manifestou em carne, “esvaziou-se a Si mesmo” (limitou-se ao poder que qualquer filho de Deus tem à sua disposição, como ser humano, e quando fez isso foi para ser nosso exemplo em tudo). Penhorar algo para obter determinado efeito é prova de limitação, não de onipotência. Além disso, como a Bíblia afirma que “tudo foi feito por Ele e sem Ele nada do que foi feito se fez”, quem foi que pediu o penhor?
Página 38 – “Quando os santos estiverem perante o Tribunal de Cristo, devolverão a Jesus a Fé” (etc.). I Coríntios 13 diz: “quando vier o que é perfeito o que é em parte será aniquilado”. E conclui: “agora permanecem estas três: a fé, a esperança e o amor”. Ora, se Paulo afirma que a fé vai permanecer, o que Ouriel de Jesus quer dizer quando afirma que os santos “devolverão a fé”?
Página 40 – A seção parece tratar de cromoterapia (aplicação do efeito curativo das cores sobre homens e animais), mas, quando explica as sete “cores da fé”, apoiando-se em Ap 10.1 e Ez 1.28, está torcendo textos que associam a visão de um arco-íris à glória de Deus, não à fé.
Há centenas de pontos questionáveis, mas uma particularidade merece comentário especial: as longas “considerações” de Daniel, Paulo e João, ao fim de cada capítulo.
A capa anuncia “Revelações do livro selado pelo Profeta Daniel”, “Revelações das coisas inefáveis que o Aposto Paulo ouviu no Paraíso” e “Revelações do livrinho comido pelo Apóstolo João”, além de que, na página 340, o suposto Apóstolo João agradece a Deus por participar das revelações “deste livro”! Assim, é frustrante que, em quase cinqüenta “considerações” ditas como sendo deles, nada haja de grandioso. O que aparece é uma quantidade enorme de frases parecidas, redundantes, na minha opinião vazias de conteúdo! São textos tão medíocres que é uma afronta atribuí-los aos grandes homens de Deus do passado – e afronta ainda maior quando agora estão livres das limitações terrenas! Mas a afronta a Deus não tem medida, porque a Bíblia declara que mortos não se comunicam com vivos. Portanto, atribuir a autoria das “considerações” a Daniel, Paulo e João se configura como outro evangelho, e o próprio Paulo declarou: “ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho, além do que foi pregado, seja maldito” (Gl 1.8).
Portanto, do ponto-de-vista bíblico, o livro é ainda mais lamentável.
Mas então, se as revelações vieram em “arrebatamentos de sentidos”, às quinze pessoas do grupo de oração, que revelações são essas?
Breve análise de alguns fenômenos “espirituais”:
Está escrito que “o Espírito Santo, quando vier, vos ensinará todas as coisas”, mas a afirmação não significa que toda manifestação “sobrenatural” vem de Deus. Vivemos em tempos muito difíceis. Precisamos aprender muito de Deus e precisamos, mais do que nunca, amadurecimento para discernir entre as manifestações de Deus e fenômenos neurológicos, alucinações, histeria, espíritos mentirosos, etc. Na atualidade, nenhum dom do Espírito é mais importante que o de discernir espíritos.
Alguns fenômenos “sobrenaturais”:
1. Um dos meus professores, Doutor em Neuropsicologia, foi dar uma palestra em certa instituição cristã. À noite, quando todos se acomodaram, fez um chá (desses de saquinho) e comeu alguns biscoitos. Passou a noite tendo “visões”, de maravilhosas a horripilantes. No dia seguinte, o ilustre e experiente cristão descobriu que o chá dos saquinhos estava embolorado e os fungos produziram toxinas que afetaram o lobo frontal do seu cérebro, produzindo uma noite inteira de alucinações!
2. Em certa igreja de pouca oração, houve uma “safra de arrebatamentos”. A igreja piorou seu desinteresse por estudos bíblicos e o pastor, dirigido por manifestações sobrenaturais e não tanto pela Palavra, foi apertando a “doutrina” e maltratando as pessoas, trazendo crescente decadência. Até hoje, percebe-se na fisionomia das pessoas o espírito de medo que as oprime. Às vezes fenômenos “sobrenaturais” são causados por líderes que, conscientemente ou não, usam seu poder mental com efeitos de hipnose eriksoniana.
3. Um pastor muito conhecido foi informado de que “todas as noites Jesus aparece à irmã X, em vestes brancas, e ensina a mensagem que ela deve pregar no dia seguinte”. O pastor disse que ela verificasse se não era demônio, pois no Apocalipse as vestes de Jesus estão salpicadas de sangue. Naquela noite, “Jesus apareceu com vestes salpicadas de sangue”. Ela disse: “eu sei quem tu és!” Ele desapareceu imediatamente e para sempre!
4. Uma outra pessoa falava em línguas sem parar, de modo perturbador. O pastor, não se sentindo bem, repreendeu. A voz ameaçou: “Olha, meu servo!.. Te arrepende ou vai ser duro para ti!” Ele pediu sabedoria a Deus e insistiu: “Em nome de Jesus, eu ordeno que todos os demônios que estiverem nesta mulher saiam dela”. A resposta foi: “Nós não saímos, porque não somos demônios!” Ele deu uma gargalhada, porque o “nós” traiu a identidade de quem estava por trás daquele fenômeno. Foram expulsos definitivamente, em nome de Jesus.
5. Está escrito: “quem busca acha”. Se busca de Deus, acha a verdade. Caso prefira espíritos mentirosos, pela adoção de certas práticas ocultistas ou esotéricas, a busca será atendida pela mentira. Certo senhor culto e simpático narrou-me uma revelação longa e espetacular que havia tido e que o convenceu, através de ensinos totalmente contrários à Bíblia. Não foi difícil perceber que o “mestre” que apareceu naquela experiência era um espírito religioso de alta hierarquia.
6. Lesões corticais, degeneração ou aplicação de cargas elétricas em determinados pontos do cérebro também podem produzir fenômenos parecidos com os “sobrenaturais”.
7. Certos estados de estimulação cerebral também podem excitar a imaginação e produzir muitos tipos de distúrbio, que uma pessoa imatura pode confundir com “revelação”.
8. Por fim, é claro que Deus também concede a seus filhos visões, revelações, etc., conforme o que está registrado na Bíblia, mas nunca em contradição com a Sua Palavra, como também nunca um amontoado de repetições e expressões que não se consegue entender, pois Deus não é de confusão. É recomendável que se estude Daniel, Atos, 2 Coríntios e Apocalipse, para entender em que condições Deus dá revelações.
É lamentável que os filhos de Deus estejam sendo destruídos pela falta de conhecimento (Os 4.6).
Conclusão:
Esta matéria abordou de maneira mínima o livro “O Triunfo Eterno da Igreja”, que é dito ser resultante das revelações em reuniões com “arrebatamentos de sentidos”. Se você quiser, pode concluir que houve uma combinação de fatores: distúrbios psíquicos, influências hipnóticas, casos de histeria, toxinas afetando o cérebro, lesões, histeria coletiva, exploração por espíritos de engano (de religiosidade, de mentira, etc.). Se quiser, analise se não há ensinos de demônios (1 Tm 4.1) nisso. Se quiser, pode crer que foram Deus, Daniel, Paulo e João que revelaram o conteúdo do livro. Você tem apoio na Bíblia e na Ciência para fazer o seu julgamento.
Pessoalmente, tenho convicção muito clara quanto à natureza do fenômeno. E, mesmo que não tivesse, “ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho, além do que foi pregado, seja maldito” (Gl 1.8). Posso afirmar categoricamente: uma confusão repetitiva e vazia, contrária à Bíblia, não veio de Deus.
É profundamente lamentável!
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