quinta-feira, 16 de julho de 2009

CONFUSÃO CORRIGE ERROS?

(Este texto foi originalmente publicado na minha coluna do Jornal Carta Aberta, em Outubro de 2004)

CONFUSÃO CORRIGE ERROS?

Uma cientista (companheira na briga “Evolucionismo x Criacionismo” com a SBPC) perguntou sobre certo manifesto anti-G12.

Há notícias recentes de erros sérios, mas Carta Aberta já tratou do G12. Também, em “Lamentável!” (*) e em “Fé e Ciência: Assunto Nosso” (Carta Aberta, Nov-Dez/03 e Ago/04) mostro que muitos problemas no mundo evangélico vêm da ignorância (Os 4.6; Mt 22.29, etc.), chamo erro, mediocridade e ignorância pelo nome (mesmo respeitando os equivocados, que Deus ama) e separo fenômenos psíquicos ou malignos de experiências com Deus, mas hoje omito a autoria do tal manifesto, até por descuidos de redação que o põem sob suspeita. Mas, mesmo que tal refutação não inclua distorções (como na brincadeira do “telefone sem fio”) e que a índole dos apóstolos (proibindo certo homem de expulsar demônios por não ser “um deles”, em Mc 9.35,38) não tenha estimulado os autores, cabe perguntar: é aceitável usar idéias confusas para refutar conceitos errados?

O espaço permite breve reflexão sobre três pontos do manifesto.

1 – O G12 é “nova revelação”?

A refutação diz: “toda revelação de Deus ao homem já se encontra registrada no VT e no NT”.

Está bem: o G12 não é uma nova revelação. Nenhuma revelação pode contrariar a Bíblia (Gl 1.8) e Cristo tem que ser o fundamento (1 Co 3.11), mas que não limitemos Deus: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis...!” (Rm 11.33). Ele revela assuntos pessoais, coletivos, futuros, passados: “nada há encoberto que não venha a ser revelado” (Mt 10.26, Hb 4.12, etc.). Se a Bíblia nem conta tudo que Jesus fez (Jo 21.25), o que dizer das incontáveis miríades de informações disponíveis para quem crê que Deus cumpre Sua Palavra: “o espírito da verdade, quando vier, vos guiará a toda a verdade” (Jo 16.13)?! Ele pode revelar até o “inexplicável”: extinção dos dinossauros, inclinação do eixo da terra (Is 24.20), “homem de Neanderthal” (DNA prova não ser nosso ancestral), presença milenar de índios e objetos de bronze (Gn 4.22) nas Américas, razão de “reenchei a terra” (Gn 1.28), “o mundo de então” em 2 Pe 3.6, pensamentos e intenções (2 Rs 6.12; Ec 10.20, 12.14; Hb 4.12), etc.

Cuidado, porém! Há “espíritos enganadores” e “doutrinas de demônios” (1 Tm 4.1). Só o dom de discernir (1 Co 12.10) pode dar (como “micro-revelações” não registradas, mas enquadradas em “macro-revelações” da Bíblia) a identidade por trás de qualquer ensino – mesmo os do púlpito da nossa igreja!

2 – Células são igreja?

O manifesto reprova chamar células de igreja: “Biblicamente, o culto no lar é uma prática antiga, mas o grupo não recebe o título de igreja como na acepção herética do G-12”.

Reuniões nas casas (Atos 2.42,46, etc.) para comer, orar, etc., eram comuns. Resultado? Multiplicação diária da igreja (At 2.47), igual à que células produzem na gestação de um corpo saudável: contínuo e abundante! Igrejas com pastores sensatos que usam o método de células têm crescimento saudável, contínuo e abundante, influenciando a sociedade com inteligência e sabedoria de Deus (ver Mt 5.13-16 e Atos). As outras (contrárias à idéia) crescem lentamente, como um feto doente. Se é que crescem!

Mas nossa ignorância não será herética também? Sem enfatizar Mt 18.20, em 1 Co 16.19 e em Col 4.6, Paulo chama os que se reúnem nas casas de Áquila e de Ninfas de “igreja que está em sua casa”.

E células de doze? Poderia ser mero critério organizacional (no meu tempo, o critério ideal no Banco do Brasil era de seis subordinados por nível), mas atribuir significado místico ao 12 é bobagem, como crer em “shofar”, rosa ungida, etc. Certos símbolos criam um “contato” (psicológico) em muitos, que então ouvem a Palavra com freqüência e recebem dela fé que dá resultados.

Por falar em psicológico...

3 – O que 2 Co 5.17 abrange?

Os autores do manifesto refutam “quebra de maldição” com 2 Co 5.17. Certo?

Errado! Um erro não justifica outro!

Carta Aberta de Maio último analisa (em “Deus está com problemas?”) várias sutilezas, como fortalezas doutrinárias, inimigo camuflado, a nossa pequenez, etc., dando substrato a este final.

A tão louvada “doutrina do contexto” deveria ter norteado o grupo em sua análise! Em 2 Co 5.16, Paulo diz que não mais conhece Cristo segundo a carne e então afirma: quem “está em Cristo é nova criatura” (v. 17). Refere-se ao Cristo agora conhecido no espírito, que disse que “Deus é espírito” (Jo 4.24) e que “o espírito está pronto, mas a ‘carne’ é fraca” (Mt 26.41). É como nova criatura em Cristo que Paulo fala no“mal [pecado] que habita em mim” e exclama: “miserável homem que sou!” (Rm 7.17-24). Isso é o ser “nova criatura”? Claro que não! Por isso diz claramente (v. 18): “na minha carne não habita bem nenhum”.

No verso 18, “carne” (sarkis) não é o corpo (soma), mas o “psicossomático”, ou seja, a unidade do corpo (com todas as estruturas físicas, inclusive o sistema nervoso) com a alma (com [1] emoções {que têm instintos ou impulsos, neuroses, complexos, traumas e síndromes}, [2] mente {com pensamento, raciocínio, imaginação, criatividade e memória} e [3] vontade {desejo e poder decisório ou livre arbítrio, origem do comportamento}, em parte compartilhadas com o espírito, que governa as pessoas espirituais, cf. Gl 5.22-25). Paulo fala disso quando diz: “a carne [sarkis] luta contra o espírito” (Gl 5.17). E em 1 Co 3.1: “irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais e infantis”. Fala a uma maioria de nascidos de novo (2 Co 5.17), mas os chama de crianças emotivas (“psicológicos”, no original grego!). Isso tudo demonstra que 2 Co 5.17 é novo nascimento do espírito (Jo 1.3; 3.3,6; etc.), não da alma e do corpo (psiche e soma, em grego).

Mais: se “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo, que não vivem segundo a carne mas segundo o espírito” (Rm 8.1,14,16), quem não anda na direção racional (Rm 12.1) do Espírito está sim sob condenação, mesmo se nasceu do espírito, pois a vida “segundo a carne” é instável, impulsiva, emocional e negativa – psicologicamente miserável (Rm 7.24)! Quando vivemos e andamos em espírito (Rm 8.13, Gl 5.25, etc.), produzimos coisas positivas (bênçãos); quando na carne, negativismos (maldições). Segundo a lei da hereditariedade (Ex 20.5,6), que Deus nunca revogou, umas e outras são gravadas no DNA e na alma, passando às próximas gerações, assim como nossos pais nos transmitiram coisas positivas (beneficência) e negativas (maldade, pecado).

Se 2 Co 5.17 e 1 Jo 5.18 se aplicassem a mais que o espírito, negativismos como falta de saúde (no corpo e na alma), miséria e obras da carne (Gl 5.17-21), que mantêm muitos em derrota, seriam automaticamente exterminados da vida de quem recebe o Salvador. Mas tudo depende de decisão pessoal (que Deus respeita) e de ação da nova criatura, sendo indispensável apropriar-se do sacrifício e da vitória de Jesus (Is 53) para cada área (com fé perseverante, Lc 9.23 e 18.1-8). Uns escolhem crer para salvação, outros não a querem; uns escolhem buscar cura, outros preferem crer só em médicos; uns decidem vencer a miséria com a ajuda de Deus e esforço, outros escolhem acomodar-se; uns decidem quebrar a seqüência de maldições sobre saúde, família, negócios, etc., mesmo quando são novas criaturas; outros escolhem acreditar que Deus os escolheu para sofrer.

Não basta, portanto, saber que Jesus “nos resgatou da maldição da lei” (Gl 3.13). É preciso exercer fé ativa, “destruindo sofismas, altivez e fortalezas” (2 Co 10.4,5). Como a fé honra a Palavra, Deus honra a fé perseverante (Tg 1.25), que usa a autoridade dada (Lc 10.19) para quebrar o jugo (escravidão, maldição) com a unção (Is 10.27) que vem Dele e dá mais que vitória total (Rm 8.37), apesar das aflições (Jo 16.33), quando buscamos quanta vida abundante queiramos, o que começa pelo subjugar a carne e produzir o fruto do espírito (Gl 5.17-25), que resulta no cumprimento da lei (Rm 13.8).

Jesus veio “para dar vida em abundância” e “para desfazer as obras do diabo|” (1 Jo 3.8) porém é necessário “resistir ao diabo” (Tg 4.7) e lutar “contra as astutas ciladas inimigas, fortalecidos pelo revestimento com toda a armadura de Deus” (Ef 6.10-18), convictos da vitória completa (Rm 8.37), porque vivendo em derrota provamos que o ladrão, que “veio para roubar, matar e destruir” (Jo 10.10), está agindo contra nosso corpo, alma e circunstâncias, mesmo como novas criaturas espirituais de 2 Co 5.17, em cujo espírito “o maligno não toca” (1 Jo 5.18).

(*) Disponível em www.webbethel.com/lamentavel.htm

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