(Este texto foi originalmente publicado na minha coluna do Jornal Carta Aberta, em Outubro de 2004)
CONFUSÃO CORRIGE ERROS?
Uma cientista (companheira na briga “Evolucionismo x Criacionismo” com a SBPC) perguntou sobre certo manifesto anti-G12.
Há notícias recentes de erros sérios, mas Carta Aberta já tratou do G12. Também, em “Lamentável!” (*) e em “Fé e Ciência: Assunto Nosso” (Carta Aberta, Nov-Dez/03 e Ago/04) mostro que muitos problemas no mundo evangélico vêm da ignorância (Os 4.6; Mt 22.29, etc.), chamo erro, mediocridade e ignorância pelo nome (mesmo respeitando os equivocados, que Deus ama) e separo fenômenos psíquicos ou malignos de experiências com Deus, mas hoje omito a autoria do tal manifesto, até por descuidos de redação que o põem sob suspeita. Mas, mesmo que tal refutação não inclua distorções (como na brincadeira do “telefone sem fio”) e que a índole dos apóstolos (proibindo certo homem de expulsar demônios por não ser “um deles”, em Mc 9.35,38) não tenha estimulado os autores, cabe perguntar: é aceitável usar idéias confusas para refutar conceitos errados?
O espaço permite breve reflexão sobre três pontos do manifesto.
1 – O G12 é “nova revelação”?
A refutação diz: “toda revelação de Deus ao homem já se encontra registrada no VT e no NT”.
Está bem: o G12 não é uma nova revelação. Nenhuma revelação pode contrariar a Bíblia (Gl 1.8) e Cristo tem que ser o fundamento (1 Co 3.11), mas que não limitemos Deus: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis...!” (Rm 11.33). Ele revela assuntos pessoais, coletivos, futuros, passados: “nada há encoberto que não venha a ser revelado” (Mt 10.26, Hb 4.12, etc.). Se a Bíblia nem conta tudo que Jesus fez (Jo 21.25), o que dizer das incontáveis miríades de informações disponíveis para quem crê que Deus cumpre Sua Palavra: “o espírito da verdade, quando vier, vos guiará a toda a verdade” (Jo 16.13)?! Ele pode revelar até o “inexplicável”: extinção dos dinossauros, inclinação do eixo da terra (Is 24.20), “homem de Neanderthal” (DNA prova não ser nosso ancestral), presença milenar de índios e objetos de bronze (Gn 4.22) nas Américas, razão de “reenchei a terra” (Gn 1.28), “o mundo de então” em 2 Pe 3.6, pensamentos e intenções (2 Rs 6.12; Ec 10.20, 12.14; Hb 4.12), etc.
Cuidado, porém! Há “espíritos enganadores” e “doutrinas de demônios” (1 Tm 4.1). Só o dom de discernir (1 Co 12.10) pode dar (como “micro-revelações” não registradas, mas enquadradas em “macro-revelações” da Bíblia) a identidade por trás de qualquer ensino – mesmo os do púlpito da nossa igreja!
2 – Células são igreja?
O manifesto reprova chamar células de igreja: “Biblicamente, o culto no lar é uma prática antiga, mas o grupo não recebe o título de igreja como na acepção herética do G-12”.
Reuniões nas casas (Atos 2.42,46, etc.) para comer, orar, etc., eram comuns. Resultado? Multiplicação diária da igreja (At 2.47), igual à que células produzem na gestação de um corpo saudável: contínuo e abundante! Igrejas com pastores sensatos que usam o método de células têm crescimento saudável, contínuo e abundante, influenciando a sociedade com inteligência e sabedoria de Deus (ver Mt 5.13-16 e Atos). As outras (contrárias à idéia) crescem lentamente, como um feto doente. Se é que crescem!
Mas nossa ignorância não será herética também? Sem enfatizar Mt 18.20, em 1 Co 16.19 e em Col 4.6, Paulo chama os que se reúnem nas casas de Áquila e de Ninfas de “igreja que está em sua casa”.
E células de doze? Poderia ser mero critério organizacional (no meu tempo, o critério ideal no Banco do Brasil era de seis subordinados por nível), mas atribuir significado místico ao 12 é bobagem, como crer em “shofar”, rosa ungida, etc. Certos símbolos criam um “contato” (psicológico) em muitos, que então ouvem a Palavra com freqüência e recebem dela fé que dá resultados.
Por falar em psicológico...
3 – O que 2 Co 5.17 abrange?
Os autores do manifesto refutam “quebra de maldição” com 2 Co 5.17. Certo?
Errado! Um erro não justifica outro!
Carta Aberta de Maio último analisa (em “Deus está com problemas?”) várias sutilezas, como fortalezas doutrinárias, inimigo camuflado, a nossa pequenez, etc., dando substrato a este final.
A tão louvada “doutrina do contexto” deveria ter norteado o grupo em sua análise! Em 2 Co 5.16, Paulo diz que não mais conhece Cristo segundo a carne e então afirma: quem “está em Cristo é nova criatura” (v. 17). Refere-se ao Cristo agora conhecido no espírito, que disse que “Deus é espírito” (Jo 4.24) e que “o espírito está pronto, mas a ‘carne’ é fraca” (Mt 26.41). É como nova criatura em Cristo que Paulo fala no“mal [pecado] que habita em mim” e exclama: “miserável homem que sou!” (Rm 7.17-24). Isso é o ser “nova criatura”? Claro que não! Por isso diz claramente (v. 18): “na minha carne não habita bem nenhum”.
No verso 18, “carne” (sarkis) não é o corpo (soma), mas o “psicossomático”, ou seja, a unidade do corpo (com todas as estruturas físicas, inclusive o sistema nervoso) com a alma (com [1] emoções {que têm instintos ou impulsos, neuroses, complexos, traumas e síndromes}, [2] mente {com pensamento, raciocínio, imaginação, criatividade e memória} e [3] vontade {desejo e poder decisório ou livre arbítrio, origem do comportamento}, em parte compartilhadas com o espírito, que governa as pessoas espirituais, cf. Gl 5.22-25). Paulo fala disso quando diz: “a carne [sarkis] luta contra o espírito” (Gl 5.17). E em 1 Co 3.1: “irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais e infantis”. Fala a uma maioria de nascidos de novo (2 Co 5.17), mas os chama de crianças emotivas (“psicológicos”, no original grego!). Isso tudo demonstra que 2 Co 5.17 é novo nascimento do espírito (Jo 1.3; 3.3,6; etc.), não da alma e do corpo (psiche e soma, em grego).
Mais: se “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo, que não vivem segundo a carne mas segundo o espírito” (Rm 8.1,14,16), quem não anda na direção racional (Rm 12.1) do Espírito está sim sob condenação, mesmo se nasceu do espírito, pois a vida “segundo a carne” é instável, impulsiva, emocional e negativa – psicologicamente miserável (Rm 7.24)! Quando vivemos e andamos em espírito (Rm 8.13, Gl 5.25, etc.), produzimos coisas positivas (bênçãos); quando na carne, negativismos (maldições). Segundo a lei da hereditariedade (Ex 20.5,6), que Deus nunca revogou, umas e outras são gravadas no DNA e na alma, passando às próximas gerações, assim como nossos pais nos transmitiram coisas positivas (beneficência) e negativas (maldade, pecado).
Se 2 Co 5.17 e 1 Jo 5.18 se aplicassem a mais que o espírito, negativismos como falta de saúde (no corpo e na alma), miséria e obras da carne (Gl 5.17-21), que mantêm muitos em derrota, seriam automaticamente exterminados da vida de quem recebe o Salvador. Mas tudo depende de decisão pessoal (que Deus respeita) e de ação da nova criatura, sendo indispensável apropriar-se do sacrifício e da vitória de Jesus (Is 53) para cada área (com fé perseverante, Lc 9.23 e 18.1-8). Uns escolhem crer para salvação, outros não a querem; uns escolhem buscar cura, outros preferem crer só em médicos; uns decidem vencer a miséria com a ajuda de Deus e esforço, outros escolhem acomodar-se; uns decidem quebrar a seqüência de maldições sobre saúde, família, negócios, etc., mesmo quando são novas criaturas; outros escolhem acreditar que Deus os escolheu para sofrer.
Não basta, portanto, saber que Jesus “nos resgatou da maldição da lei” (Gl 3.13). É preciso exercer fé ativa, “destruindo sofismas, altivez e fortalezas” (2 Co 10.4,5). Como a fé honra a Palavra, Deus honra a fé perseverante (Tg 1.25), que usa a autoridade dada (Lc 10.19) para quebrar o jugo (escravidão, maldição) com a unção (Is 10.27) que vem Dele e dá mais que vitória total (Rm 8.37), apesar das aflições (Jo 16.33), quando buscamos quanta vida abundante queiramos, o que começa pelo subjugar a carne e produzir o fruto do espírito (Gl 5.17-25), que resulta no cumprimento da lei (Rm 13.8).
Jesus veio “para dar vida em abundância” e “para desfazer as obras do diabo|” (1 Jo 3.8) porém é necessário “resistir ao diabo” (Tg 4.7) e lutar “contra as astutas ciladas inimigas, fortalecidos pelo revestimento com toda a armadura de Deus” (Ef 6.10-18), convictos da vitória completa (Rm 8.37), porque vivendo em derrota provamos que o ladrão, que “veio para roubar, matar e destruir” (Jo 10.10), está agindo contra nosso corpo, alma e circunstâncias, mesmo como novas criaturas espirituais de 2 Co 5.17, em cujo espírito “o maligno não toca” (1 Jo 5.18).
(*) Disponível em www.webbethel.com/lamentavel.htm
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