(Este texto foi originalmente publicado no Jornal Carta Aberta, em maio de 2004)
Deus está com problemas?
Certa vez ouvi um estudo bíblico profundo e equilibrado sobre os dois problemas que Deus tem. Só dois. Mas que problemas! Um: o povo de Deus. O outro: os pastores.
Jesus repetiria hoje: “Está escrito que eu sou o pão da vida, que eu vim para dar vida abundante, que sofri em extremo para que vocês tenham salvação, cura e libertação; que todos os tesouros do conhecimento e da sabedoria estão em mim, etc. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Mesmo assim vocês não querem vir a mim”.
E lamentaria de novo: “O meu povo está sendo destruído por falta de conhecimento” (Os 4.6). “Estendi as minhas mãos todo dia a um povo rebelde e contradizente” (Is 65.2 e Rm 10.21). “Contudo não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo 5.40).
Após tantas instruções e conselhos para que o povo de Deus deixe a indiferença e se desvie do perigo destruidor da ignorância e da desobediência, Deus “desabafa” através da voz do profeta: “Mas, se não ouvirdes, a minha alma chorará em segredo, por causa da vossa soberba; e amargamente chorarão os meus olhos, e se desfarão em lágrimas, porque o rebanho do Senhor está sendo levado cativo” (Jr 13.17).
Os dois problemas de Deus são a desobediência e a incredulidade do povo e dos pastores.
Desconhecimento x Fé
Durante a recente seca no Rio Grande do Sul, uma irmã pediu ao dirigente que a igreja orasse por chuva. Ele respondeu: “isso não é assunto de oração; Deus envia chuva quando quiser”. Deus tentou inspirar a igreja à vitória na oração, mas a fé foi bloqueada pela incredulidade do dirigente. Ao mesmo tempo, a alguns quarteirões dali, havia um estudo bíblico sobre a fé e sobre como Elias venceu a seca; então o Espírito Santo disse que se três pessoas jejuassem parcialmente por três dias contra a seca, ao final do quarto dia Deus enviaria chuva de bênçãos, sem trovoadas nem vendavais, e até o racionamento terminaria ainda em Abril; que, portanto, levassem guarda-chuva ao culto. E assim foi: durante o culto da noite prevista, começou uma chuva abundante, que durou três noites; e o racionamento acabou!
A cidade foi ricamente abençoada porque três pessoas creram – e obedeceram – mas em outros 300 municípios o Deus de Elias (1 Rs 17 a 19) nada pôde fazer, porque ninguém estava disposto a tapar a brecha (Ez 22.30). Afirmar que “Deus envia a chuva quando quiser” é incredulidade, é negar que Deus responde. Porém foi Ele quem disse: “tudo quanto pedirdes em oração, crede que recebereis e tê-lo-eis” (Mc 11.24). Deus responde orações feitas, mas quando não temos fé para fazê-las, crendo só no que é visível, não nos submetemos à dependência de Deus que torna possível “ver o invisível” (Hb 11.27). E não depender de Deus é soberba.
Ciência médica e “fortaleza doutrinária”
Certo ministro estava tecnicamente com “labirintite”. Fez 30 exames de laboratório e teve o diagnóstico unânime: “seu ouvido está perfeito”. Nada explicava a perda de 60% da audição do lado esquerdo, com zumbidos e tonturas horríveis. Então Deus deu discernimento daqueles sintomas: “quando tais causas negativas forem eliminadas, sua audição ficará totalmente boa, mas ore com base em Efésios 6”. Como sua igreja não costuma orar com base em textos bíblicos, foi visível a dificuldade daquele homem em praticar a orientação de Deus.
A história só não surpreende por ser comum! “Fortalezas doutrinárias” bitolam crentes a ponto de eles preferirem classificar todos os males como “vontade de Deus”! Conformam-se com os ataques do ladrão e destruidor (Jo 10.10) e enfraquecem a confiança em quem tem vida abundante para dar (Jo 10.10), perdendo benefícios que poderiam usufruir (Sl 103.2), caso se firmassem na cláusula bíblica que diz que “verdadeiramente ELE tomou sobre si as nossas enfermidades...” (Is 53.4,5), que Deus tem interesse e prazer em honrar. Assim duvidam da veracidade de Deus (1 Jo 5.10).
Sem polemizar
Em tempo: não quero causar polêmica; falta espaço para aprofundar estas questões. Também não sou “teólogo da prosperidade”. Mesmo assim, estou ciente de que o parágrafo anterior incomodará alguns, com base, por exemplo, nas freqüentes enfermidades de Timóteo (1 Tm 5.23). Por agora basta compreendermos que os filhos de Deus enfrentaram crises, como nós hoje. Exemplo inegável é Paulo, mesmo já convertido: recomendava que vivamos em paz, mas ele mesmo continuava um brigão de marca maior (At 15.39 e Gl 2.11-14). Tanto que, humildemente, ele se declara um miserável (Rm 7.24).
Tenho enorme admiração por Paulo. Quem me dera ser como ele, nas mãos de Deus! No entanto, as falhas dos grandes homens de Deus não me movem um só milímetro da convicção de que, se entendemos o que foi revelado por Deus na Palavra, podemos crer com total confiança, pois Ele tem interesse pleno em honrar o que mandou escrever (Jr 1.12 e 2 Tm 2.13). E, sendo assim, podemos declarar guerra à nossa incredulidade.
Guerra do Vietnam
Quem se lembra de qual foi a arma que derrotou o país mais poderoso do mundo na Guerra do Vietnam? Foi uma só, e totalmente simples: os soldados não conseguiam identificar o inimigo! Os guerrilheiros “vietcongs” camuflavam-se como agricultores. Os soldados americanos até dormiam com aquelas mulheres, mas tudo era artimanha de um inimigo que enganava um exército poderosíssimo com truques simples – exatamente os métodos do nosso inimigo: disfarce, confusão e engano (Ef 6.11).
Inimigo camuflado
Efésios 6 explica que temos uma guerra espiritual e relaciona o armamento adequado para nos defendermos, mas parece muito estranho que a única arma de ataque é uma tal de “espada do espírito”. Embora o mesmo texto chame essa estranha arma como “Palavra de Deus”, as especificações técnicas estão noutra parte do Manual: “a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante que qualquer espada de dois fios; penetra até a divisão de alma e espírito, de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12).
Paulo fala numa lei interior (o “mal que habita em mim”) que o impede de fazer o bem, a ponto de desabafar: “Miserável homem que sou!” (Rm 7.24). Ele descreve o Inconsciente, onde são gravados traumas e feridas emocionais, síndromes, complexos e fobias (na estrutura neuropsicológica do Sistema Límbico e dos “núcleos da base”), que representam as “fortalezas” que Paulo recomenda destruir, para então podermos trazer “todo pensamento cativo à obediência de Cristo” (2 Co 10.5).
A Bíblia faz muitas referências ao mal e a homens maus. Gênesis 6, especialmente, diz que “era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente” (Gn 6.5). Mesmo assim, muitos cristãos “conservadores” tendem a crer que “poder” da imaginação, energias mentais (humanas) prejudiciais a outras pessoas, etc., são coisa de “esotéricos”. Mas do que é que Pv 14.30 e 27.4 estão falando, se não de um só de tais negativismos? Afirmam que a inveja é irresistível e que até apodrece (desmineraliza!) os ossos. São negativismos psíquicos, emocionais e espirituais como a inveja (e muitos assemelhados) que prejudicam as pessoas, mas quantos de nós queremos pesquisar isso? Ao invés de entender tais maquinações (2 Co 2.11), preferimos crer num inimigo com rabo, chifres e tridente, num inferno a milhões de quilômetros!
A nossa pequenez
Deus nos deu todas as ferramentas para descobrirmos tudo que convém, pois Ele mesmo estabeleceu como glória do homem o esquadrinhar (pesquisar, descobrir) – e advertiu que a ignorância destrói (Os 4.6). Mas nós, cristãos, preferimos achar que Ele tem obrigação de nos ensinar. Então, quando os chineses descobrem a acupuntura e sei lá quem desenvolve a homeopatia, confortavelmente dizemos que ambas são do diabo (como tudo que não compreendemos); deixamos os ímpios explorarem o cinema e a televisão, e depois lutamos para impedir nossos filhos (e até as “ovelhas”) de ir ao cinema, ter televisão, etc., por causa da imoralidade que reina nesses meios; e depois pagamos uma fortuna para transmitir um programa televisivo qualquer, na esperança de que o lixo diminua e que possamos alcançar algumas vidas para o Senhor. E, ao invés de aprendermos dessas perdas e derrotas, continuamos desconhecendo as profundas verdades da Palavra de Deus, mas disfarçamos nossa ignorância estabelecendo doutrinas de homens (não raro sob a forma de usos e costumes) para limitar Deus à nossa pequenez e à nossa miopia.
E quanto a nós?
Mas Deus diz claramente: “Vai ter [aprender até] com a formiga, preguiçoso(a)” (Pv 6.6). “Aconselho-te que de mim compres colírio, para que unjas os teus olhos e tenhas visão” (Ap 3.18). Quando Jesus ressuscitou Lázaro, não desatou as cordas que o travavam nem o livrou do lenço que o cobria (Lc 11). Ele podia ter feito, mas não quis. Quando Deus livrou Israel do Egito, podia ter ensinado Moisés a administrar o povo (Ex 18), mas não quis. Ele preferiu que os discípulos libertassem o ressuscitado e que Jetro ensinasse um grande líder!
E nós? Vamos continuar preguiçosamente criando problemas para Deus? Ou vamos assumir nossa responsabilidade e buscar um preparo profundamente adequado para desamarrar o nosso próximo e ensinar os grandes líderes da geração que verá o Senhor?
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