(Texto originalmente publicado no jornal "Carta Aberta", em Abril de 2005)
DEUS ESTÁ EM APUROS?
Alguns textos e pregações defendem ou refutam certas doutrinas ou teologias com tão pouca base bíblica que às vezes dá uma agonia até que aquilo termine.
Casos horripilantes de pregadores sem educação, que humilham os ouvintes com grosserias, omitirei. Igualmente excluirei os casos de machistas evangélicos que oprimem as mulheres com discriminação semelhante à dos antigos fanáticos do Afganistão. Nossas irmãs são condicionadas por tal opressão que elas mesmas resistem quando alguém tenta aliviá-las dessa “teologia do medo”, que invalida a obra salvadora de Cristo! Então, não querendo ser ajudadas, nem Deus se mete!
Mas foquemos as “bondosas tentativas” que alguns fazem de livrar Deus das contradições em que pensam que Ele caiu.
Exemplo: num púlpito muito cobiçado, um pregador bem conceituado discorreu sobre Jó, deixando transparecer dois objetivos: refutar exageros teológicos e estimular os ouvintes a se conformarem com o sofrimento. Afirmou que Jó era prova do erro da teologia que ensina de que “o crente não precisa sofrer”, porque, se “em tudo isso Jó não pecou”, ele estava certo quando perguntou: “receberemos de Deus o bem e não receberemos também o mal?” (Jó 2.10). Para ele, isso prova que “foi Deus quem enviou os sofrimentos sobre Jó”.
Mas espere aí! O que foi que Jó reconheceu no final? “Falei de coisas que não entendia; ... demasiado maravilhosas, que não conhecia. Com os ouvidos ouvira falar de ti; mas agora te vêem os meus olhos” (Jó 42.3,5).
Precisamos examinar as escrituras com atenção, como os bereanos (por isso chamados de “mais nobres”, em At 17.11). Devemos estudá-las em comunhão com Deus e com mente aberta, porque “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Co 3.6).
Só não compreende a resposta de Jó quem nunca ficou desatinado com a pressão insistente do cônjuge contra algum assunto ou decisão. O sujeito está naquela crise descomunal e ainda vem a incrédula e perturbadora fazer uma proposta daquelas!...
Embora sem pecar, não imagine que ele respondeu inspirado na sensatez de profunda reflexão espiritual produzida pela paz advinda da doce comunhão com o Senhor...
Está visto que não! A reação dele hoje equivaleria a: “Cala a boca, sua idiota!”
Há outros detalhes tão claros que é impressionante o pregador não perceber:
Jó 1.12: “Disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo o que ele tem está no teu poder; somente contra ele não estendas a tua mão”.
Jó 2.7: “Saiu, pois, Satanás da presença do Senhor, e feriu Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até o alto da cabeça”.
Deus impõe limites: “não estendas contra ele a tua mão”. Depois, “Satanás feriu Jó com úlceras malignas”.
Pergunta quase desnecessária: quem foi que atacou Jó? Quem destruiu, roubou e matou? Satanás só não acabou com Jó porque Deus impediu!
E aí me dizem que Deus fez Jó sofrer! E que devemos acolher o sofrimento como sendo a boa vontade (?!) divina para conosco!
Calma aí!
Precisamos entender que:
1) A vontade perfeita de Deus foi estabelecida na eternidade.
2) Quando Satanás se rebelou, causou as desgraças registradas na bíblia (e também as não registradas) e declarou guerra para impedir a realização da vontade perfeita de Deus e destruir o que Ele criou.
3) Existe, a partir de então, uma vontade de Deus perfeita, mas de aplicação limitada, porque “no presente século” o pecado inviabilizou o plano perfeito e infinito de Deus.
4) Como conseqüência da queda, quem não se submete a Deus coopera com Satanás, em oposição à vontade divina, por ignorar a Palavra de Deus (Os 4.6, etc.), por não buscar direção específica (Rm 8.14,16, etc.) e por não usar a autoridade que lhe foi dada (Lc 10.19, etc.), do que dará contas.
5) A desobediência cria situações que levam a incomensurável bondade de Deus a aprovar certas opções menos perfeitas (na profissão, no casamento, na moradia, nos negócios, etc.), porquanto ainda compatíveis com o nosso bem, já que perdemos o melhor.
6) Como, infelizmente, poucos buscam orientação de Deus, a maioria não faz sua perfeita vontade nem descobre as opções que Ele aprovaria. Assim, restam opções que Ele não indicaria, se consultado. Essa tal “vontade permissiva” não nos livra de encrencas, porque Ele não está dirigindo, mas simplesmente permitindo algo que decidimos por nossa conta.
7) O pior: a maioria vive em desobediência pura e simples. Não faz a vontade perfeita, não busca o que Ele aprova nem pergunta se Ele permite. A rebelião começa nos púlpitos e termina às ocultas, sendo praticada por alguns filhos de Deus e por outros tantos que se julgam tais.
Agora a pergunta: devemos aceitar qualquer sofrimento como enviado por Deus? Claro que não! Temos que pedir discernimento para rejeitar tudo o que não vem dele. Ele corrige, é certo, mas com amor; e o pecado traz más conseqüências, é também certo. Mas Deus não se contradiz: “o ladrão veio roubar, matar e destruir, mas eu [Jesus] vim para dar vida em abundância”; “aquele que nem a seu próprio filho poupou por amor de nós como não nos dará as demais coisas?” e por isso “o filho de Deus se manifestou para desfazer as obras do diabo” e também “se fez pecado para nos tornar justiça de Deus”; “todo dom perfeito e boa dádiva vem dele” e “já nos deu tudo que diz respeito à vida e à piedade”; por isso, “pedi e dar-se-vos-á”; porque “vosso pai depressa vos fará justiça, ainda que pareça demorado”; portanto, se “pelas suas pisaduras fomos sarados” e se Ele “vela por sua Palavra para a cumprir” e até depois que céus e terra sejam desfeitos “nem um jota ou til [do que Ele disse] ficará sem cumprimento”, mas todas as promessas “têm nele o sim e o amém”... e se Ele “nos amou de tal maneira...”
Então...
Quem somos nós para acusar Deus de causar mal às nossas vidas?
Ser “perseguidos por causa da justiça” é uma coisa. Deixar o diabo lançar lixo, destruição e desgraça porque ignoramos seus maus desígnios é outra.
O problema é que vivemos uma vida cristã tão superficial que não aprendemos daquele que é “manso e humilde de coração”. Não nos achegamos a Deus e, portanto, Ele não “se achegará a nós”. Isso não torna Deus incoerente, mas nós sim, porque não o conhecemos nem à sua fidelidade.
E aí, não é Deus que está encrencado. Mas, quando não nos esforçamos para chegar a ele, nós sim é que nos metemos em apuros!
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