(Texto originalmente publicado no jornal "Carta Aberta", em Março de 2005)
Maremoto e Ministério
Jesus não excluiu ministros do Evangelho ao prever gente “desmaiando de terror por causa do bramido do mar e das ondas” (Lc 21.25). Portanto é bom lembrar que todos cometemos erros e que “se alguém não tropeça no falar, esse é perfeito” (Tg 3.2).
Assombro
Alguns leitores ficaram assombrados com o texto “Quem Deus ouviu primeiro?”, já retirado do site (*) do conceituado pastor Ricardo Gondim. Como as reflexões possíveis não cabem neste espaço, convido os leitores para debatermos as omissões e os mal entendidos que porventura resultem desta coluna.
Por enquanto, vejamos alguns pontos delicados.
Como estava o autor?
Celebrávamos o Natal, cantando, comendo e bebendo, quando 300 mil pessoas morreram e outras milhares perderam tudo, em cenas de horror que levaram Gondim e outros ao pranto, “estado de choque” e noites insones (aliás, sensíveis todos devíamos ser!). Então, que demos um “desconto” ao homem de Deus. É nossa obrigação entender os desabafos de uma pessoa tentando aliviar a pressão da alma ante situações que desafiam nossa teologia (Mc 12.24). Nem sempre nossas emoções e mentes estão equilibradas (2 Tm 1.7), renovadas (Rm 12.1-3) e com a paz (Cl 3.15, Fp 4.7) que traz discernimento e inspiração de Deus.
Deus tem medo de perguntas?
“Se eu, que sou mau, não consigo continuar impassível diante de cenas tão chocantes, Deus conseguiria?”
“E Deus? Não fez nada? Por quê?”
Quando viajo para dar estudos e palestras, estimulo os ouvintes a entregarem perguntas escritas e anônimas (para proteger seus autores). E me assusto. Não pelas perguntas, mas pela indiferença. Certos grupos evangélicos querem “agito”, emocionalismo e apoio a doutrinas de homens, mas não as profundezas de Deus (1 Co 2.1-11). Poucos querem esquentar os neurônios para refletir e estudar. O pior é que muitos pastores – repito: muitos! – preferem ovelhas bobas, confusas e medrosas, que não ousem expor dúvidas honestas e que não venham aos cultos para aprender. Assim eles não têm que ensinar! Fogem da profundidade, temendo afogar-se no que desconhecem (Os 4.6 e Jo 10.10). Não admira que, quando as tragédias ocorrem, não haja respostas.
Mas Deus as tem.
E que respostas!
Ele não tem medo de perguntas.
"Ah! Mas Deus não fez nada!"
Será?
Quando as duas torres caíram (2001), muitos perguntaram aterrorizados por que Deus não impediu ou porque não salvou aquelas pessoas.
Deus se importou e muitos testemunharam de como escaparam. Deus mostrou três classes de pessoas: as que ouviram a orientação de Deus (Hb 3.7; etc.) e saíram das torres, ou que nem foram; as que ouviram mas não obedeceram (não discerniram e não obedeceram a voz de Deus; Jr 7.26, etc.); e as que não ouviram (pois milhões não acreditam que Deus fala) ou que obedeceram a ordens humanas (os bombeiros, por exemplo).
Não conhecemos muitos testemunhos da Ásia, mas afirmo que Deus usou de todos os meios para salvar. Exemplo: quem foi que inspirou os elefantes a fugirem para lugares altos com os turistas – antes de a onda chegar?
Os animais ouviram e obedeceram. Os humanos não!
E quanto às crianças? Foi como na família de Acã: sofreram as conseqüências quando o pai não deu ouvidos à orientação (Ex 20.5; Js 7.24-26; etc.). Ora, se até nas igrejas há desinteresse em aprender a ouvir a voz de Deus (Jo 10.4), o que se espera dos que nem ouviram falar de Jesus?!
Claro que o assunto não está esgotado, mas o espaço está.
Soberania e Poder
Quanto às dificuldades (2 Pe 3.16) relativas à Soberania e Onipotência de Deus, só não temo grandes incompreensões do seguinte resumo porque Dn 12.10 diz que “os sábios entenderão” os tempos finais:
Ao criar o mundo, Deus estabeleceu uma parceria de livre arbítrio, criatividade e autoridade (Gn 1.26,28; 2.19; etc.), mas a obra prima de Sua criação escolheu desobedecer. Pelo pecado, o Marginal-mor penetrou no mundo e arruinou a criação (Gn 3; Jo 10.10; 1 Jo 5.19). Num imenso respeito para com Sua Soberania, Sua Palavra e Sua criatura (nem esta se dá tanto valor!), Deus expulsou o casal do Éden (para não comer da árvore da vida), mas honrou o contrato: manteve a autoridade dada ao homem, inclusive para imobilizar o Marginal (Lc 10.19; Mt 12.29; etc.), e preservou o direito de escolher entre bênção e maldição (Dt 11.26-28). Portanto, a decisão de ouvir e obedecer (ou não) está sobre nós – e a responsabilidade pelas boas (ou más) conseqüências também.
Soberania irresistível
Alguns continuarão crendo numa “vontade de Deus soberana, única e irresistível”. Se é assim, por que é que o Deus que “não quer que ninguém se perca, mas sim que todos cheguem ao conhecimento da verdade” (2 Pe 3.9, etc.) não salva todos à força?
Mesmo com a desgraceira que o pecado causou (Rm 8.22), Deus não foi derrotado. Executará a prisão eterna do Marginal, “derreterá” os átomos da presente criação (2 Pe 3.10) e depois realizará Seu projeto perfeito de amor incomensurável, criando “novos céus e nova terra, onde habita a justiça” (2 Pe 3.13; Ap 21.1; etc.). Mas, na atual dispensação, a essência de Sua vontade é igualmente soberana, irresistível e irrevogável: Ele decidiu que a humanidade é quem escolhe entre a vida e a morte (Gn 2.17; Jo 3.16). E assim é.
É simples: o contrato deu liberdade de decisão ao homem. As conseqüências estão aí.
Isso é glória?!...
Aos que disseram que Deus “não fez nada para manifestar sua glória a um mundo rebelde”, eu perguntaria: estão chamando Deus de incoerente e mentiroso? Ele disse que amou o mundo sobremaneira, mas esses acham que Ele aprendeu a comportar-se como o diabo, matando e destruindo (Jo 10.10); que, num ataque de sadismo maquiavélico, se serve de tragédias para mostrar que é “superior”!...
Se quem falou isso lesse esta coluna, pediria que se calassem, pois Deus não está com problemas de auto-estima!
Breves conclusões
1. Nas crises, é mais prudente buscarmos a Deus em silêncio (Is 30.15). Deus esclarecerá a qualquer de nós que o buscar com diligência (Lc 18.1-8 e Mt 7.8).
2. Melhor entendimento da Palavra e mais experiência no ouvir a voz de Deus produzem confiança na Soberania e Onipotência, tanto na bonança quanto em dificuldades.
3. É necessário “repensar” nossa incredulidade, não nossa teologia. Desta, não seria má idéia jogar boa parte no lixo.
4. Jesus prometeu que o Espírito Santo “dirá delicadamente” toda a verdade (Jo 14.26, orig.), mas, acostumados ao vendaval dos altos brados (mormente nos meios pentecostais), raramente discernimos a voz do Espírito na sua mansidão de brisa (1 Rs 19.11-13).
5. “Tendo ousadia para entrarmos no santíssimo lugar, pelo sangue de Jesus... cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé; ... retenhamos inabalável a confissão da nossa esperança, porque fiel é aquele que fez a promessa...” (Hb 10.19-24). Tenhamos ousadia para questionar, mas perguntemos a Jesus, que é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6) e dá Sabedoria, conhecimento, prudência e discrição (Pv 8.1-12). Quanto mais ousarmos conhecê-Lo, tanto mais Deus comprovará Sua fidelidade: “Clama a mim e responder-te-ei” (Jr 33.3).
Lembremo-nos: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia, pelo que não temeremos... ainda que as águas rujam e espumem, ainda que os montes se abalem pela braveza delas” (Sl 46.1-3).
Ainda não vimos nada! Os montes nem se abalaram!
(*) Site do Pastor Ricardo Gondim: www.ricardogondim.com.br
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário