quinta-feira, 16 de julho de 2009

SUPER interessante? Nem tanto!

(Este texto foi originalmente publicado na minha coluna no Jornal Carta Aberta, em março de 2004)

SUPER interessante? Nem tanto!

Às vezes as revistas seculares trazem matérias sobre igrejas e religiões. Algumas matérias são muito boas, outras nem tanto. Umas são equilibradas, outras preconceituosas. É mais comum darem grandes espaços a religiões orientais e de origem africana, ou a superstições e assuntos de fundamento no mínimo questionável (como é o caso da astrologia), mas de vez em quando alguém se lembra de Deus e produz um estudo de bom nível sobre o cristianismo, falando sobre Deus, Bíblia, igrejas evangélicas e afins. Foi o que fez a Super Interessante de Fevereiro último. A matéria, bastante ilustrativa e semelhante à publicada por Veja há oito anos, apresenta na capa a foto de uma mão que levanta a Bíblia e traz como manchete “EVANGÉLICOS – quem são, por que crescem tanto, e o que essa expansão significa para o futuro do Brasil e do mundo”.

Naturalmente, não temos espaço para produzir uma análise minuciosa de tudo que é dito, mas gostaria de destacar algo que chamaria de algumas frases “super interessantes” (e dolorosas, algumas delas):

“Com mais de 400 anos de atraso, finalmente estamos sentindo os efeitos da Reforma protestante que varreu a Europa no século 16”.

“Os protestantes que prosperaram no Brasil pouco tinham a ver com a tal ética protestante de Weber”.

“Os pentecostais eram os crentes estereotípicos: mulheres de cabelos compridos e saia, homens de terno e Bíblia na mão. As palavras essenciais para entendê-los são ascetismo e sectarismo” (isolamento do restante da sociedade!).

Não dá para negar que a matéria está boa, mas é necessário ter em mente alguns fatos importantes, tanto positivos quanto negativos:

As estatísticas estão defasadas. Um exemplo de que as estatísticas de 2000 não espelham a realidade: há dias participei do 10º aniversário de uma igreja. O primeiro culto, em 1994, tinha 25 pessoas (incluindo eu e a família, que fomos convidados, mas continuamos na igreja de origem). Pois bem... e como está hoje a tal igreja? No domingo, quem não chegar bem cedo só conseguirá uma cadeira para sentar depois que quase 500 crianças forem para os cultinhos por faixa etária! Detalhe 1: o templo principal tem 1.800 cadeiras! Detalhe 2: são realizados dois cultos, um logo após o outro e são necessários cordões de orientação para quem entra não se misturar com quem sai. Ou seja, em 10 anos a igreja passou de 25 pessoas para mais de 4.000! Qual é o segredo? Muito ensino para todos os membros, muito treinamento para todos os colaboradores e obreiros, muita convivência, muito pastoreio, muita oração (Atos 2.46 e 5.42) e muita evangelização (inclusive com assistência aos necessitados em favelas, etc.).

Por uma questão de integridade, é preciso registrar o exemplo contrário: há igrejas tradicionais, com meio século de atividade, que continuam em templos com lugar para menos de 200 pessoas – e nunca enchem! Por quê? Porque seus líderes preferem cultuar “a tradição dos anciãos” e o apego a usos e costumes medievais (ao contrário de Jesus e de Paulo, por exemplo, que eram criativos e adequados – contextualizados – culturalmente, e ninguém deveria se julgar mais filho de Deus do que qualquer deles!).

Com isto, fica claro que nem todas as igrejas cresceram 160 vezes nos últimos 10 anos. Ainda assim, é correto afirmar que, no Brasil, o número de salvos mais do que dobrou, desde o ano 2000.

Ter o nome na igreja não significa ser membro do corpo de Cristo. Apesar dos exemplos de extraordinário crescimento, é bom lembrar que muitas igrejas – repito, muitas! – estão cheias de gente que não nasceu de novo. Estou falando, inclusive, das igrejas que se julgam donas da verdade. Quem leu esta coluna no mês anterior sabe que estou falando de “netos de Deus”, mas também de milhões que merecem a salvação se guardarem isso e aquilo, sem nunca experimentarem a “liberdade em Cristo Jesus” (Gl 5.1), o que não significa confundir liberdade com libertinagem.
Existem grandes diferenças entre as igrejas evangélicas. A Super Interessante começa sua matéria falando sobre Kenneth Hagin (falecido em 2003, enquanto dormia), e praticamente diz que ele foi o “pai” da teologia da prosperidade, afirmando também que esta teologia é a responsável pela “explosão evangélica” no Brasil. Mas há igrejas evangélicas que se opõem radicalmente a ela. Há outras igrejas que se utilizam do sistema de grupos familiares (At 2.46 e 5.42, etc.), mas outras se declaram contrárias a isso. Há igrejas evangélicas ligadas a um movimento chamado G-12, mas outras se opõem de tal forma a ele que declaram abertamente considerá-lo do diabo. Há igrejas pentecostais e outras que declaram o Batismo com o Espírito Santo como derramado no dia de Pentecostes (At 2.1, etc.) uma experiência que não mais se repetiu.

Poderia continuar citando incontáveis diferenças doutrinárias e de pontos-de-vista, mas a menção das diferenças é para lembrar que Jesus declarou: “um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir” (e haverá doutrinadores dizendo que estou tirando a citação do contexto). Por outro lado, o ecumenismo como sistema nunca foi pretendido por Jesus, mas a unidade em espírito foi, é e será o objetivo principal do Senhor, que é a Cabeça da Igreja, em relação a este organismo espiritual, que é o Seu corpo (Jo 17.20-23).

Quanto às diferenças, é claro que algumas são distorções mínimas do pensamento inabalável de Deus, mas outras são verdadeiros absurdos, devendo ser classificadas como heresias à luz da Palavra de Deus, que não se presta a interpretações adaptadas ao interesse pessoal de grupos ou indivíduos.

É oportuno registrar que a matéria apresenta diversos quadros interessantes: o comparativo entre católicos e evangélicos, como também entre pentecostalismo e neopentecostalismo, além de um mostrando as grandes ramificações (e também as menores) que o cristianismo sofreu, de um outro sobre profissão de fé e, finalmente, um esquema apresentando as cinco principais denominações evangélicas brasileiras.
Formalismo versus fanatismo. Por via das dúvidas, lembro-me com freqüência de uma frase citada de Nels Nelson: “Entre o fanatismo e o formalismo, prefiro este; porque o formalismo conserva, mas o fanatismo destrói”. De modo algum isto quer dizer que fé seja fanatismo. A verdadeira fé na Palavra de Deus é a riqueza mais preciosa e equilibrada que qualquer pessoa sensata deveria procurar, pois se baseia simplesmente em admitir que Deus é coerente e “de palavra” (2 Tm 2.13).

Os escândalos. Entre as frases de Super Interessante, esta é a mais dolorosa: “Os protestantes que prosperaram no Brasil pouco tinham a ver com a tal ética protestante de Weber”.

Devíamos ter vergonha disso, mas, infelizmente, a falta de ética no meio evangélico chegou a um ponto que não há espaço para comentários. E se não me atenho a detalhes, declaro que não é por medo de dar nome ao pecado, embora seja de temer o que possam fazer certos “evangélicos”, quando seus interesses sejam contrariados. A coisa é de tal nível que mentir e roubar salário de empregados são “deslizes” pequenos! Quando há histórias de evangélicos aceitando suborno para aprovar decisões que de outra forma seriam rejeitadas, só dá para lembrar uma afirmação de Jesus: “É inevitável que venham escândalos, mas ai daqueles por meio dos quais eles vierem” (Mt 18.7, etc.).

A Super Interessante conclui dizendo que os “especialistas” não concordam quanto às previsões de que o Brasil venha a tornar-se evangélico. Alguns acham que a Igreja Católica “equilibrou o jogo, com a renovação carismática”. É verdade que a Canção Nova (uma comunidade católica carismática com milhões de seguidores, inclusive com canal de TV próprio) é uma das provas que Jesus tinha razão quando predisse que “se estes se calarem as próprias pedras clamarão”, da mesma forma que o filme “A Paixão de Cristo” (que está levando centenas de milhares de pessoas à conversão, em dezenas de países).

Por quê? Entendo que há dois motivos claros para estas e outras “pedras” clamarem. Primeiro, muitas igrejas evangélicas se tornaram realmente sectárias, pois preferem servir às suas próprias tradições e se enclausurar entre quatro paredes, como que selecionando quem elas aceitam para salvação e, assim, não cumprem o “Ide” (ver Mt 22.9-10). Segundo, conforme a própria Super Interessante declarou, “quanto mais crescem, menos os evangélicos mudam a cara do país” (e, ao dizer isso, cita uma “prova”, que prefiro não repetir, porque, infelizmente, há muito evangélico agindo de maneira tão mundana como qualquer mundano; de modo que as palavras “evangélico” e “crente” se desgastaram tanto que já começa a ser preferível a gente se declarar “apenas” como “cristão”).

“Quanto mais crescem, menos os evangélicos mudam a cara do país”! Ler isso, num Brasil tomado de tal corrupção que nos últimos dez anos seu patrimônio praticamente foi todo transferido para o exterior (pelos piores vendilhões que esta pátria já teve) faz quem tem vergonha baixar a cabeça. Ler numa revista secular que “quanto mais crescem, menos os evangélicos (que deveriam ser o sal da terra e a luz do mundo!) mudam a cara do país” não poderia ser pior. Devíamos meter o rosto no chão e chorar diante de Deus, envergonhados e arrependidos.

Mas sabe o que é pior? Tem gente – evangélica! – que, depois de ler, ainda vai debochar!

É profundamente lamentável.

Estes e outros assuntos podem ser aprofundados no grupo eletrônico “Ciência e Bíblia”, que se propõe a comparar o que uma e outra dizem sobre assuntos como homossexualismo, dilúvio, criação versus evolução, etc., mas tudo mais que tenha relação com a nossa fé. Caso você deseje participar, envie um email para npcs@usa.net e solicite sua associação.

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